Agora que o pior acontecera, eu deixava de ter de continuar a viver no medo de ver o pior acontecer. É assim que a razão, abalada, formula a sua lógica ferida. (John Banville, Eclipse)

 

23 julho 2006

Camus sobre Hiroxima

Albert CamusLe monde est ce qu'il est, c'est-à-dire peu de chose. C'est ce que chacun sait depuis hier grâce au formidable concert que la radio, les journaux et les agences d'information viennent de déclencher au sujet de la bombe atomique. On nous apprend, en effet, au milieu d'une foule de commentaires enthousiastes que n'importe quelle ville d'importance moyenne peut être totalement rasée par une bombe de la grosseur d'un ballon de football. Des journaux américains, anglais et français se répandent en dissertations élégantes sur l'avenir, le passé, les inventeurs, le coût, la vocation pacifique et les effets guerriers, les conséquences politiques et même le caractère indépendant de la bombe atomique. Nous nous résumerons en une phrase : la civilisation mécanique vient de parvenir à son dernier degré de sauvagerie. Il va falloir choisir, dans un avenir plus ou moins proche, entre le suicide collectif ou l'utilisation intelligente des conquêtes scientifiques.

En attendant, il est permis de penser qu'il y a quelque indécence à célébrer ainsi une découverte, qui se met d'abord au service de la plus formidable rage de destruction dont l'homme ait fait preuve depuis des siècles. Que dans un monde livré à tous les déchirements de la violence, incapable d'aucun contrôle, indifférent à la justice et au simple bonheur des hommes, la science se consacre au meurtre organisé, personne sans doute, à moins d'idéalisme impénitent, ne songera à s'en étonner.

Les découvertes doivent être enregistrées, commentées selon ce qu'elles sont, annoncées au monde pour que l'homme ait une juste idée de son destin. Mais entourer ces terribles révélations d'une littérature pittoresque ou humoristique, c'est ce qui n'est pas supportable.

Déjà, on ne respirait pas facilement dans un monde torturé. Voici qu'une angoisse nouvelle nous est proposée, qui a toutes les chances d'être définitive. On offre sans doute à l'humanité sa dernière chance. Et ce peut-être après tout le prétexte d'une édition spéciale. Mais ce devrait être plus sûrement le sujet de quelques réflexions et de beaucoup de silence.

Au reste, il est d'autres raisons d'accueillir avec réserve le roman d'anticipation que les journaux nous proposent. Quand on voit le rédacteur diplomatique de l'Agence Reuter annoncer que cette invention rend caducs les traités ou périmées les décisions mêmes de Potsdam, remarquer qu'il est indifférent que les Russes soient à Koenigsberg ou la Turquie aux Dardanelles, on ne peut se défendre de supposer à ce beau concert des intentions assez étrangères au désintéressement scientifique.

Qu'on nous entende bien. Si les Japonais capitulent après la destruction d'Hiroshima et par l'effet de l'intimidation, nous nous en réjouirons. Mais nous nous refusons à tirer d'une aussi grave nouvelle autre chose que la décision de plaider plus énergiquement encore en faveur d'une véritable société internationale, où les grandes puissances n'auront pas de droits supérieurs aux petites et aux moyennes nations, où la guerre, fléau devenu définitif par le seul effet de l'intelligence humaine, ne dépendra plus des appétits ou des doctrines de tel ou tel État.

Devant les perspectives terrifiantes qui s'ouvrent à l'humanité, nous apercevons encore mieux que la paix est le seul combat qui vaille d'être mené. Ce n'est plus une prière, mais un ordre qui doit monter des peuples vers les gouvernements, l'ordre de choisir définitivement entre l'enfer et la raison.

Albert Camus, «Editorial», Combat, 8 août 1945.

17 julho 2006

A teoria e o carro (Capítulo I)

O tribunal fechara naquele dia anunciando as férias de Verão – época aproveitada pelos zelosos juízes do mal alheio para dividir o tempo entre banhos e o estudo minucioso dos processos que os sufocavam por tamanha pilha amontoada em cima das suas doutas secretárias de mogno.
Estava uma tarde quente e húmida que transformara a recepção do meu escritório, à Fernão de Magalhães, num pequeno cubículo de sauna sem o odor de folhas de eucalipto, onde se esconde por detrás de uma robusta parede de granito o meu asséptico gabinete.
Despachei um cliente, arguido num processo de peculato, em apenas trinta minutos. Henrique Oliveira – o Henrique do O. – esperava-me, decerto, boiando no seu próprio suor, após – conjecturava – uma conversa anódina, de mera circunstância, com Raquel, a minha secretária de pernas esguias e busto generoso. Henrique combinara este encontro de véspera, vindo de Felgueiras. Era hoje, tinha de ser hoje, culpava-me por uma terrível sucessão de alguns convívios lamentavelmente falhados pelos compromissos que o meu trabalho de advogado me obrigara durante o ano judicial.
«Diligências…», desculpava-me sempre.
Desta feita lá iríamos, era certo, prometera-lhe uma ida ao Ourigo, de Porto Seco bem gelado e uma tábua de queijos recheada com os cinco do costume, que nos emprestavam por uns tempos um pouco de massa adiposa jamais regateada.
Fechei a pasta de couro, pousei a Mont Blanc, despi a gravata, vesti o blazer e encontrei o Henrique com o seu Moleskine a garatujar umas notas perfeitamente ininteligíveis.
Despedi-me de Raquel até ao dia seguinte, erguendo o indicador direito para o meu Communicator apontando à tecla vermelha: «Por hoje, finito
Por fim saímos. Teria chamado um táxi não fosse a insistência de Henrique em nos fazer transportar à Foz na sua 4L cor de ferrugem, esparsamente mosqueada com uns tons de branco que há muito fugira.

«Diz à mamã que estarei em casa por volta das dez», disse Henrique à sua filha, a quem ligara pelo seu telemóvel. «De qualquer forma diz-lhe para não ficar preocupada. Eu ligo-lhe antes de iniciar a viagem de regresso. Adoro-vos!». Desligou.
«Eh pá! Estás formidável!», atirou-me Henrique quando se achou definitivamente entregue ao nosso habitual convívio de actualização das nossas vidas recentes.

«Há quanto tempo não trocas a suspensão?», disse eu, depois da milionésima cabeçada no vidro do meu lado direito.
Sem resposta. Henrique assobiava entremeando com uns encómios, por vezes sarcásticos, à paisagem degradada da Invicta. Do nosso lado esquerdo, pelo vidro avelhado e sensivelmente retorcido da 4L, já se podia vislumbrar o mar que se agitava contra os muros de pedra lodosa reverberando tons dourados pelo intenso sol de Verão. «Bonito espectáculo!», não se cansava de dizer. Era este o silêncio contemplativo que se abatia sobre nós, como num diálogo surdo, enquanto o destino de uma tarde bem passada não se fazia anunciar.
Quebrei o enguiço quando finalmente lhe perguntei:
«Olha lá, o que é que apontavas nesse teu caderninho preto quando te encontrei na sala de espera do meu escritório? Escrevias de forma tão enérgica que…»
«É uma teoria. Uma teoria nova que carece de alguns empirismos!», disse-o de uma forma tão resoluta como travessa, pois nos seus olhos vislumbrei uma centelha, que ousava manter desde os nossos tempos de meninice, quando insinuava o cometimento de uma típica traquinada. E prosseguiu:
«O teu cliente… Aquele mal-encarado que saiu do teu gabinete, não estava sozinho, pois não?»
«Não, estava com a mulher!», disse-o tentando perscrutar o fio condutor dos seus pensamentos. «Aliás, deves ter convivido com a senhora... Estiveste sentado junto dela, não?»
«Pois…», diz ele de forma encabulada. «Mal falámos.» «Aquele gajo é um anormal!»
«É um debochado de um arrivista, com muita massa, que se julga com o rei na barriga e convencido de que tudo no mundo tem o seu preço.» Atirei sem fazer cerimónias, como era apanágio das nossas, agora cada vez mais raras, conversas.
«Bem», retorquiu, «reparei no ar de infelicidade daquela mulher», ao mesmo tempo que suspirava como que desafogando um impotente lamento. Uma dolorosa rendição perante o aparentemente inesgotável espectro por que se manifesta a maldade humana. E ele disse:
«Pude-lhe ver uma nódoa negra que aqueles muito convenientes óculos escuros deixaram escapar».
«Típico», disse eu. «O gajo trouxe-a só para assinar uns papéis… Caso contrário viria com uma das suas espampanantes conquistas para ostentar o lado bom da vida – e da sua fortuna – a este advogado celibatário que por acaso é teu amigo.»
«Sim, estou a ver o género…», sentenciou Henrique. «Mulher oficial, uma batelada de filhos, muitas amantes engatadas em serviços nocturnos e… o carro, porventura sabes que carro trouxe?»
«Não sei!», asseverei. «Vejo-o sempre com carros diferentes.»
«Então, hoje, trouxe um daqueles vermelhos muito vistos pelos meus lados, um Ferrari, lia-se 599… humm… qualquer coisa.»
«OK, mas diz lá», disse eu retomando a questão que me intrigava, «ainda não me falaste das notas que tiraste aí para o teu Moleskine!»
«Pois, já te disse que era uma teoria.», disse Henrique de forma enfática. «Vou-te contar uma história que me ocorreu há uns tempos lá no meu gabinete do tribunal de Felgueiras. Ouve, e aplica-a a quem conheças.»

Chegámos ao Ourigo. Combinámos o reinício da explanação da sua teoria apenas após o primeiro trago de Porto e já com alguns pedaços de Rambol – sempre o nosso pecado inicial – bem acomodados no bucho.

(continua)

14 julho 2006

Chinaski e Hemingway

Tal como havia prometido no blogue que serve de Casa-mãe, aqui fica um excerto do conto “Não tenho pescoço e sou mau com’às cobras” de Charles Bukowski, que é parte integrante do livro A sul de nenhum norte (pp. 242-243):

«
O bar era porreiro. Sentei-me a uma mesa com Vicki e disse-lhe que ia partir aquilo tudo. Quando eu era novo costumava partir os bares todos, agora limito-me a dizer que quero parti-los.
(…)

Sentei-me à mesa com a Vicki e mandei vir mais algumas cervejas. Tomei-lhe a cabeça entre as mãos e virei-lha na direcção da empregada:
– Olha como ela é bonita, caramba! Não é bonita?
Nessa altura, Ernie Hemingway ergueu-se, com aquela barba de rato branco que ele tem.
– Ernie – disse eu –, pensei que tinhas estoirado a cabeça com uma espigarda!
Hemingway desatou a rir.
– Que queres beber? – perguntei eu.
– Eu é que pago – respondeu ele.
Ernie foi buscar bebidas para nós e sentou-se. Parecia um bocado mais magro.
– Fiz a crítica do teu último livro – disse eu. – Disse mal. Desculpa lá.
– Não faz mal – disse Ernie. – Gostas da ilha?
– É boa para eles – respondi.
– E isso quer dizer…
– Que o público tem sorte. Tudo lhe agrada: cones de gelados, concertos rock, as canções, a libertinagem, o amor, o ódio, a masturbação, os cachorros quentes, danças country, Jesus Cristo, patins, o espiritualismo, o capitalismo, o comunismo, histórias aos quadradinhos, Bob Hope, esqui, discussões-pesca-assassínio-bowling, tudo, seja o que for. Não estão à espera de grande coisa e não conseguem grande coisa. “É uma gangada ennorme”.
– Mas que grande discurso.
– O público é que é bom.
– Tu a falar pareces um personagem dos primeiros livros do Huxley.
– Acho que estás enganado. Eu sou um desesperado.
– Mas – disse Hemingway –, as pessoas tornam-se intelectuais para fugirem ao desespero.
– As pessoas tornam-se intelectuais porque têm medo e não porque se sintam desesperadas.
– E a diferença entre um gajo que tem medo e um desesperado é…
– No vinte! – respondi. – É um intelectual!... O meu copo…
»

13 julho 2006

Prémios Literários: Línguas Inglesa e Francesa

Uma das funções deste blogue, recentemente criado, é o de dar a conhecer os prémios que se vão atribuindo por esse mundo fora na categoria de Ficção (Romance/Novela/Conto).
Assim, para que se cumpra esse objectivo, deixo aqui ficar uma lista, não exaustiva, da atribuição dos principais prémios da literatura nas línguas inglesa e francesa nos anos de 2005 e de 2006 – sempre que a obra premiada estiver publicada em Portugal, surgirá a referência ao título em português, à editora responsável pela sua publicação e ao ano da sua publicação em Portugal.
Para breve serão divulgadas as listas dos prémios literários nas línguas de Camões e de Cervantes.

Língua Inglesa

  • National Book Awards – Fiction 2005 – William Vollmann, Europe Central
  • National Book Critics Circle Award – Fiction 2005 – E.L. Doctorow, March
  • PEN/Faulkner Award 2005 – Ha Jin, War Trash
  • PEN/Faulkner Award 2006 – E.L. Doctorow, March
  • PEN/Nabokov Award 2006 (carreira) – Philip Roth
  • Pulitzer Prize: Fiction 2005 – Marillyne Robinson, Gilead (Ao meu filho, Difel, 2006)
  • Pulitzer Prize: Fiction 2006 – Geraldine Brooks, March
  • The Hemingway Foundation/PEN Award 2005 – Yiyun Li, A Thousand Years of Good Prayers
  • The International IMPAC Dublin Literary Award 2005 – Edward P. Jones, The Known World
  • The International IMPAC Dublin Literary Award 2006 – Colm Tóibín, The Master
  • The James Tait Black Memorial Prize for Fiction 2005 – Ian McEwan, Saturday (Sábado, Gradiva, 2005)
  • The L. L. Winship/PEN New England Award 2005 – Jennifer Haigh, Baker Towers
  • The Man Booker Prize for Fiction 2005 – John Banville, The Sea (O Mar, Asa, 2006)
  • The Orange Prize for Fiction 2005 – Lionel Shriver, We Need to Talk About Kevin
  • The Orange Prize for Fiction 2006 – Zadie Smith, On Beauty
  • The Whitbread Award for Fiction – First Novel 2005 – Tash Aw, The Harmony Silk Factory (A Fábrica das Sedas, Difel, 2006)
  • The Whitbread Award for Fiction – Novel 2005 – Ali Smith, The Accidental (A Acidental, Bico de Pena, 2006)

Língua francesa

  • Grand Prix du Roman de l'Académie Française 2005 – Henriette Jelinek, Le destin de Iouri Voronine
  • Prix Femina 2005 – Régis Jauffret, Asiles de fous
  • Prix Goncourt 2005 – François Weyergans, Trois jours chez ma mère
  • Prix Interallié 2005 – Michel Houellebecq, La possibilité d'une île (A Possibilidade de Uma Ilha, Dom Quixote, 2006)
  • Prix Médicis 2005 – Jean-Philippe Toussaint, Fuir
  • Prix Renaudot 2005 – Nina Bouraoui, Mes mauvaises pensées

11 julho 2006

Benefício no Douro aumenta 3500 pipas

Produção votou contra os números aprovados pelo comércio e pelo IVDP.

O quantitativo de benefício para o vinho do Porto aumentou em 3500 pipas face ao ano passado. Os números finais foram ontem apresentados em reunião interprofissional, na Régua, tendo merecido o voto contra dos produtores, que terão argumentado com a possibilidade de virem a receber menos, apesar de a quantidade de pipas a receber benefício aumentar, uma vez que o bolo dos que recebem benefício também aumentará.
A produção ficou também desagradada com o facto da Associação das Empresas de Vinho do Porto (AEVP) ter anunciado na semana passada que o benefício poderia abranger entre 125 e 127 mil pipas de mosto.
Perante o empate verificado entre produtores e comerciantes (votaram a favor das 123.500 pipas), teve de ser o presidente do Instituto do Vinho do Douro e Porto, Jorge Monteiro, a desempatar, através do voto de qualidade. Deste modo, os produtores quiseram mostrar o seu desagrado por não terem recebido garantias de que, em caso de excedentes, o comércio ficaria com os mesmos e pagaria idêntico preço.
Os comerciantes, representados pela AEVP, mostraram o seu desagrado por este voto contra dos produtores, falando mesmo em "decepção pela não-participação positiva na discussão quantitativa" da produção. Além disso, acrescentam, os produtores não só votaram contra como não apresentaram qualquer tipo de proposta, quer para as quantidades de benefício, quer para qualquer "critério-base para esta determinação".
Outro dos pontos em discussão foi o do prazo dos pagamentos à produção, que a partir de agora passará a ser efectuado pelo Instituto do Vinho do Douro e Porto até 15 Janeiro de cada ano. Até este ano, as uvas eram pagas até 31 de Dezembro e os vinhos até 15 de Janeiro. Mas, por proposta e votação dos produtores e do voto favorável de Jorge Monteiro, a medida avança, apesar da abstenção do comércio.
No que diz respeito à distribuição do benefício, os comerciantes de vinho do Porto asseguram que seguirá o mesmo critério do ano passado, ou seja, "tem em conta uma maior valorização da qualidade".
Por fim, a conta de pagamentos de vindima vai continuar sob a dependência directa e única do IVDP, que assim pagará aos produtores, sem qualquer intermediário. O pagamento por esta conta é obrigatório para todas as situações, com excepção das transacções efectuadas através de contratos de compra e venda realizados e entregues ao IVDP até 31 de Dezembro. A produção votou contra, pois pretendia uma gestão partilhada.
in Público, 11 de Julho de 2006, por Mário Barros.

10 julho 2006

Data

Aos dez dias do mês de Julho de 2006: fiat lux et facta est lux!

De novo Sophia (sabedoria, sensatez ou conhecimento) como musa inspiradora para a criação de um blogue.
Apesar de weblog se poder traduzir à letra como diário de bordo na web, a função primordial deste espaço, que agora se criou, não é a de receber o registo diário das minhas compulsões de pendor excessivamente errático e pluridisciplinar.
Este blogue é unicamente subsidiário do
Porque no que às artes literárias diz respeito.
Aqui, para além de algumas rubricas a estrear, serão incluídas algumas secções que atafulhavam o blogue principal, tornando-o bastante pesado para uma ligação à Internet de menor capacidade de tráfego. Logo, a actualização diária das notícias sobre livros do periódico americano
The New York Times, assim como a secção dedicada ao Ritmo Editorial Português, transitam para este espaço.
Na área dedicada às referências a outros locais na rede apenas figurarão ligações dedicadas à literatura – processo de actualização se irá delongar pelas próximas semanas.

Bem-vindos!